Le chien blanc
O cachorro branco é o meu futuro.
Uma das possibilidades, pelo menos.
Meu futuro é um rusky indomável
que não posso tocar.
Que late e me ronda
e me olha e vigia.
Um rusky siberiano com pêlos grandes,
Poucas vezes aparados,
Levemente amarelos.
Meu futuro é um rusky, um cachoro branco,
que não me aceita. Me desafia.
Tento acalmá-lo, mas ele não cede.
Quer romper a corrente,
atravessar o portão
E me devorar.
Meu futuro é um rusky. Um cachorro branco.
O psicopata
Não, não se pode discutir. Ele tem certeza que é um pouco mais alto que ela. Tem certeza porque sempre que a encontra pensa a mesma coisa. Vê seus olhos de cima, de forma que a pupila aparece entre dois de seus grandes cílios da pálpebra superior.
Sente-se mal sempre que repara isso, mas não consegue deixar de olhar nem de pensar. Na sua cabeça doente, os cílios longos e delicados são a metáfora mais gritante de pernas semi-dobradas, e é impossível ver uma pupila profunda, entre dois longos cílios, e não imaginar a garota deitada nua numa cama, com esta convidativa posição de pernas.
Pensar nisso tudo era sempre um choque. Temia que alguém percebesse suas fantasias absurdas. Que ele enrubescesse.
O que seria dele se sua mãe descobrisse que ele imaginava aquilo das garotas? E se as mães das próprias garotas descobrissem? E situações mais e mais desagradáveis se encadeavam numa paranóia aterrorizante.
Ao tentar parar o ciclo das fantasias, falhava. Era traído por sua própria imaginação que o torturava, levando as idéias sexuais ao completo extremo, mostrando a ele os cílios e olhos das mães das meninas e de sua própria mãe!
Tentava fugir em vão, porque qualquer lugar que pudesse se esconder, só poderia estar em sua própria cabeça.
Toda sua mente se transformava então num labirinto de pupilas e vaginas, e de cílios e pernas. E todas aquelas mulheres nuas, e tantas camas. E espinhos incesticidadas em forma de coroa, chicotes flagelavam o resto de seu corpo e a consciência pesava demais em seus ombros.
Era nessa hora que algum mecanismo clemente de defesa deixava sair algumas palavras propositalmente imbecis. Novamente estaria isolado, então. Protegido. De um mundo pervertido a se combater.
Portanto, é lógico que não poderia explicar. Não poderia argumentar. Mas ele sabia descrevê-la detalhadamente e estava certo, inclusive, que era um pouco mais baixa que ele.